Cadência

Tem momentos que a convivência comigo mesma se torna simplesmente insuportável. O ideal seria sair de mim e, de fora, nem tomar conhecimento que eu existia. Meus desejos anseios e defeitos não seriam meus. Eu seria apenas uma outra coisa que, não necessariamente observaria, mas que incondicionalmente seria liberta. A angústia, a necessidade de sempre se suprir estariam cadenciados com o por do sol. Fosse assim talvez, existiria uma introspecção latente apenas do que é agradável ao olhar e ao que representamos diariamente.


Ainda me pego pensando em como é grande a necessidade se fingir. De sermos hipócritas e de cuspirmos na possibilidade de ser feliz. O esgotamento das minhas energias não me permite ancorar em porto algum. Estou submersa em águas de algum oceano perdido. Agora, só consigo enxergar à miragem ondulada, o calor fumegante, a sede do deserto e o brilho do meu sol que teima em queimar minhas esperanças e me põe na boca o sabor amargo da minha convivência.

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Literalmente Decidida

As mulheres, em sua grande maioria, têm a mania de estar numa busca inquietante do homem perfeito. E eles existem? Sim. Mas, não para todas. Um homem de porte viril, honesto, carinhoso, atencioso, calado, apartidário é mais raro do que um filhote de ararinha azul albina. Mas, existe.


Pouco se sabe, é que, com o passar do tempo, essa procura foi se “coisificando”, chegando ao ponto do mulherio fazer opções de produto de mercado. Alerto: falo isso por mim. Encontrar alguém para chamar de meu amor está difícil. Não por ser exigente demais ou por achar que me falta algum atributo, pelo contrário. Já optei por uma sorte de rapazes que transitavam entre o estilo brega ao evangélico, fazendo escala nos metrosexuais, esquizofrênicos e horripilantes. Resultado? Nada.

Por isso, a partir de hoje, impulsionada pela vergonha alheia que senti ao ver aquela moça do Fantástico, desesperada, correndo atrás de contrair um matrimônio a todo custo, digo em alto e bom som que cansei. O que não implica em radicalizar. Se aparecer um alguém, claro que será de bom grado, mas a procura, a caça, a ida pra guerra? Exausta, parei.

E foi nesse processo de “coisificação” que embarquei. Agora, vou me dedicar à literatura. Nela, eu encontro tudo e mais um pouco. Se eu quiser um amor sem limites, acho em vários títulos de Eça de Queiroz. Uma simples paquerinha ou uma noite de azaração em Candace Bushnell. Traição, ou talvez apenas o seu mistério em Machado de Assis e para discutir a relação, são seria com outra pessoa se não com Clarice.

A leitura é, sem sombra de dúvidas, mais do que fantástica. Além de elucidar tantas questões, apresenta muitas vantagens, como: está sempre com você, quando você não tem interesse ou está com dor de cabeça, não reclama se cala e consente. Não fala que sua bolsa é muito grande, até prefere e até acha mais confortável, não se incomoda em ver você com um creme verde abacate no rosto, como também permite que fique o tempo indicado no pote sem fazer careta, nem ri de você.

Quanto ao outro lado, adora longas preliminares, permite desbravar a delicadeza das orelhas sem sentir cócegas e achar ruim, permite o aprofundamento mais íntimo do cheiro das suas páginas. Dorme sem roncar. E o melhor de tudo, não precisa ligar no dia seguinte pois ao despertar, ele - o livro- já te olha sorrindo e pronto para ser devorado mais uma vez

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O Compromisso


Parte I - a tímida


Eu tinha uns poucos anos de idade e começava a dar os primeiros suspiros de paixonite por um menino da minha classe. Ele era o mais bonito, o mais bem cuidado, o mais tudo. Eu era apagadinha e quieta quando o assunto era coisas do coração. Enquanto pra mim, tudo ficava no mundo da lua, nas minhas divagações e nos meus sonhos, minhas colegas e ele brincavam, em todo recreio, de “pêra, uva, maçã”. Eu, que era temerosa, mas não queria deixar de brincar, sempre optava por pêra, que equivalia a um insosso aperto de mão. Era tão tímida que nem ao menino que eu era apaixonada, pedia o aperto de mão. Nem o olhava, ia direito a um amigo que já sabia e vinha apertar minha mão com cara de desdém. A “beijação” dele com as minhas amigas rolava solta e eu, como boa pisciana, sonhava com o dia que eu diria a ele maçã. Nunca aconteceu.


Parte II - o pedido

Um belo dia, quando fui deixar a mochila na sala de aula e seguir para a forma, para minha surpresa ele estava lá, sozinho e sentado na minha banca. Que susto! Engoli seco, tremi a ponto de ter um treco. A vontade de ter um xilique era tanta, que de zonza trobei nas demais bancas, já desfazendo a arrumação da sala. Ele estava me esperando? O que era aquilo?

- Bom dia!

Eu, gaga mais que tudo:

-bo-bo-bom di-i-a

- você quer namorar comigo?

-ãh?

-é é é isso, na-na-morar comigo - ele estava meio nervoso também.

Eu:

- não po-o-osso.

Só me vinha a cabeça meu pai e minha mãe e se eles coubessem que eu estava com um namorado? As freiras do colégio iam contar tudo. Eu ia ter que beijar? E como era namorar? E o que eu ia fazer, além de tremer, de sentir o rosto sem sangue?

- é, é não posso.

- como não pode?

E agora?, eu pensava. Tudo que eu justificasse verdadeiramente soaria como “mico”. Foi quando soltei:

- é é que eu sou coommm-com-com-prometida.

Não sei de onde eu tirei aquela mentira. Mas na hora saiu.

Fui para a forma, deixando meu grande amor para trás e levando comigo uma frustração no coração temeroso e partido.


Parte III - a descoberta

Ele sentava na minha fila que eu e o dia correu cheio de olhares. Fui ao recreio e lá descobri que ele tinha feito isso com 4 outras meninas, duas delas, minhas melhores amigas. A ideia dele era ter uma namorada para cada dia da semana, ou seja, cinco namoradas.



Parte IV - a insistência

À tarde, fui jogar ping-pong na casa de uma das amigas, namorada dele, quando de repente, ele chegou lá. Eu, que já não sabia jogar e sempre era café com leite, errei mais ainda. Quando trocou o time, ele me abordou:

-Erika, é que hoje... hummm. Eu quero namorar com você.

-é-é-é, mas é a-a-aquilo que eu falei.

- e quem é?

- ãh?

-Quero saber quem é? Pra ir acertar umas contas.

Engoli seco:

- você não conhece. Ele é do XV.

- do XV?

chegou a vez dele ir jogar e assim foi.



Parte V - Força Bruta

No outro dia, lá vou eu deixar minha mochila, como de costume, quando entro na sala, sou agarrada por ele que veio me beijar. Eu, educadamente pedi licença e segui pra minha banca. Deixei minha bolsa e passei reto por ele. Assustada, segui para a forma.



Parte VI - O que será o amor?

Durante a aula de português, recebo uma borracha e nela grafado: “quer namorar comigo? Responde na borracha.” Virei a borracha e respondi: “não estou mais namorando o menino do XV. Eu aceito.” (mulher como sempre argumentando demais.). Não consegui mais me concentrar nas paroxítonas que a professora explicava e só sonhava.



Parte VII - a amizade

Na hora do recreio, ele veio até mim e minhas amigas e disse que estava namorando comigo também, que agora estava tudo certo. Sorteamos o dia de cada uma. Fiquei com a quinta-feira. Ainda era terça e tive que aguardar minha vez.



Parte VIII - Corra, Erika, Corra

Meu dia chegou e, logo na saída da sala para o pátio, ele já pegou na minha mão. Eu, nervosa não conseguia falar, nem fazer mais nada do que andar. Passei o recreio inteiro andando de mãos dadas pelo pátio. Ele queria parar, sentar, me abraçar e eu puxava e andava mais rápido ainda. .O recreio acabou e, praticamente corri para a sala, sem dar um pio.



Parte IX - o futebol

Na quarta, depois de ter namorado com todas cinco, ele não pegou na mão de ninguém. Reuniu todas as namoradas e informou que não queria mais namorar com a gente e que preferia aproveitar o recreio jogando bola com os amigos.



Parte X - a conclusão

Imagine se nessa época tivesse cerveja?

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A lua e eu


Era sonho que via?


Era a realidade que sonhava?



Sinto o cheiro da lua

Seu perfume aquece a minha alma

Sua luz canta os meus olhos



Entre figuras de linguagens

Os sonhos ficam ocultos

Entre o caminho sombrio

A lua ilumina meu desejo.



Quero a lua da minha janela

Quero seu sorriso em minha alma

Quero seu quarto, eterno crescente

E nova vontade de amar



Quero a minguante saudade

Presente no gosto da lembrança.

E minha alma pura e completa

Vivendo e lutando cheia de amor



Quero a lua do sol nascente

E assim receber o seu brilho



Quero a lua humilde e sedenta

Do sorriso de uma criança



Quero a lua em flor

No desabrochar da noite escura



Quero o sonho de um dia ser lua

E ter a sabedoria de ensinar as estrelas a brilhar



Quero apenas ser

lua e o mais puro luar.

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Inverno..........

Tem amores que adormecem na nossa mente, mas que com um simples gole de vinho renascem e nos faz se inebriar no mais puro sentimento de saudade. Lembro dele com um casaco claro, sorriso no rosto e fumacinha de frio saindo pela boca.

Não tenho a mínima idéia de como ele seria no verão. Acho que nem seria ele.

Os termômetros acusavam frio, mas, para  nós... era tudo tão tórrido.

Saíamos a pé pelas ruas da Lisboa Antiga, com o pretexto de um gole de vinho para nos esquentar. Chegávamos ao mesmo restaurante, à mesma mesa. No pedido, vinho sempre. Tomávamos uma garrafa depois uma garrafinha. Sempre a mesma medida.

A caminho de casa, e, de tanto calor, ficávamos a ponto de tirar o casaco e caminhar desprotegidos do vento cortante.

Agora, aqui, há muitos quilômetros de distância, em puro clima tropical, degusto o mesmo vinho que, elogiávamos o poder de esquentar. Conclusão: a bebida não esquenta do jeito que imaginávamos.

Tudo era uma desculpa tanto para degustá-lo quanto um disfarce para o calor que sentia um pelo outro.

Éramos feitos de inverno! Vivíamos para o inverno! Aquela estação tinha sido feita para nós e nada mais importava. Éramos realistas e isso bastava.

Agora, aqui, distante o suficiente, vejo que o vinho nem era tão bom assim e a composição perfeita era outra.

A primavera, então, começou a anunciar sua chegada e aquilo não era nosso. Aos poucos nos afastávamos. Quando dei conta, as flores tamavam conta da cidade e sozinha eu estava.

Então, o tempo passou, as estações mudaram e mais uma vez chegou o inverno em Lisboa. Sequer suportei tal ausência e vim para o calor dos trópicos. Nunca mais tomei aquele vinho. Só me restou saudade do que se esvaiu com a chegada das flores.

Prefiro, por vezes imaginar, que aquele inverno, tão especial foi um sonho e que, eu nem sequer conheci alguma pessoa com o seu nome, com o seu toque, com o seu carinho, com sua pele, com seu cheiro conheci. Sabe, é mais prático!

As flores nem sempre trazem alegria.

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Elisa Lucinda

Eu simplesmente adoro Elisa Lucinda!!!


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